Tensão entre Cuba e EUA: uma guerra cada vez menos fria
Cuba é um exemplo, uma oportunidade para ver o pior que há no mundo tomar forma e decidir se vale a pena lutar contra isso ou não.
Enquanto o Médio Oriente (destronando a guerra russo-ucraniana) ocupa o centro do palco geopolítico, monopolizando horas de atenção mediática, em Cuba, a mais de 12 mil km do foco da guerra entre os Estados Unidos e o Irão, a carestia de vida atinge patamares desumanos.
Cuba estava profundamente dependente do petróleo importado da Venezuela, pelo que o ataque americano, aliado à falta de infraestruturas e investimento no setor energético, foi um fator disruptivo para toda a economia cubana.
O bloqueio petrolífero exercido pelos EUA sobre a ilha caribenha resulta em cortes energéticos de até 20 horas e em falhas de água e luz severas e constantes. Nas ruas, o lixo acumula-se, as ambulâncias não conseguem assegurar as missões de socorro necessárias e os transportes públicos escasseiam. Milhares de cirurgias foram adiadas e não há certezas quanto à capacidade de garantir a segurança e os cuidados médicos da população.
Cuba necessita diariamente de cerca de 60 mil barris de petróleo bruto para ter eletricidade. Devido ao embargo americano que decorre desde janeiro, a energia torna-se cada vez mais um luxo, o que abala a economia cubana a nível estrutural. A inflação cresce a um ritmo avassalador e a sociedade cubana enfrenta um ambiente quase apocalíptico de miséria, falta de assistência médica, medo generalizado e uma incerteza incessante.
O turismo, grande fonte de rendimento para o país, tem sofrido uma queda drástica. A procura tem diminuído. Muitos hotéis foram forçados a fechar e várias companhias aéreas já suspenderam os seus voos para a ilha.
Este cenário de desastre desenrola-se à sombra das declarações de Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos já ameaçou voltar a sua atenção para Cuba aquando do fim da guerra com o Irão.
A tensão entre Havana e Washington escala sem que se entenda qual é o objetivo final da administração Trump. Com base nas declarações do presidente americano, não é um exagero considerar que a anexação de Cuba esteja em cima da mesa. Resta saber se se planeia uma intervenção militar à semelhança da atuação americana na Venezuela ou um compromisso político que pode passar pela chantagem ou pela manipulação.
O regime está fragilizado. Dez milhões de cubanos não têm energia nas suas casas. A população parece vulnerável e o Estado impotente, pelo que esta pode ser uma oportunidade para derrubar o governo e agregar Cuba à esfera de influência americana, o que seria uma mudança de paradigma histórica.
A ONU já se pronunciou, acusando os EUA de violar a Carta das Nações Unidas e infringir o direito internacional, mas Washington tem-se mostrado pouco incomodado pelas censuras das Nações Unidas, organização da qual se tem vindo a afastar desde a tomada de posse de Donald Trump.
“Cuba é uma nação em colapso” - Trump não poupa críticas e acusações ao regime e ao governo da ilha. O presidente americano acredita que Cuba é um Estado falhado, em ruínas, que aguarda a salvação ou libertação americana.
Apesar da pressão exercida por Washington, o Presidente cubano, Miguel Diaz-Canel, recusa demitir-se. Segundo diz, o governo não deve ceder às ameaças dos EUA nem se deve submeter ao Presidente dos Estados Unidos. O próprio afirma: “Temos um Estado livre e soberano (...) gozamos de autodeterminação e independência, e não estamos sujeitos aos desígnios dos Estados Unidos”.
À semelhança do que há meses se afirmava na Gronelândia, também em Cuba se diz que o país não está à venda nem disponível para se transformar no quinquagésimo-primeiro Estado dos EUA.
Trump enfrenta assim mais um entrave, ainda que não especialmente robusto, à sua política de ameaças e neo-expansionismo, mas desta vez detém poder real sobre a população, o que coloca o povo de Cuba à sua mercê.
Asfixiar a economia cubana, na tentativa de transformar a nação insular numa espécie de distopia, pode ser uma nova estratégia para desmoralizar e enfraquecer uma futura resistência cubana à intervenção americana. Pode tratar-se de um plano a médio prazo, o que contrasta com o caráter impulsivo da atual política externa dos Estados Unidos. É ainda um modo particularmente cruel de intervencionismo, que afeta principalmente a população mais pobre e vulnerável.
A anunciação da intenção de anexar Cuba ou derrubar o seu regime pode ter várias leituras. Por um lado revela uma arrogância muito típica de Trump, uma manifestação do seu sentimento, talvez não infundado, de impunidade e da visão da superioridade tática e bélica dos EUA sobre as outras nações. Por outro lado, pode funcionar como agravante do clima já precário que se sente no país das Caraíbas. As ameaças podem constituir um fator de terror psicológico e um ataque ao moral da população, contribuindo para o seu descontentamento. Quer Trump pretenda desfazer o governo a partir de dentro, quer tenha o objetivo de demonstrar a força militar americana num golpe mais direto, parece que os seus planos - que podem ou não já estar traçados - dependem da evolução da guerra no Médio Oriente.
Fica por confirmar se Trump consideraria intervir em Cuba sem resolver a questão do Irão ou saindo derrotado da mesma. Para já, os cubanos ficam em suspenso, a ameaça pouco velada paira no ar e toma forma na escuridão, na sujidade e no desespero diários, mas o destino de milhões de pessoas depende do que acontecer no campo de batalha e nos gabinetes situados a meio mundo de distância.
Quando se trata de Trump é difícil averiguar a seriedade das declarações, mas, ainda assim, surge a dúvida: quais são os próximos alvos na mira da política americana?
Apesar da gravidade da situação, a tensão entre Cuba e os EUA não é uma novidade. O atual embargo e a troca de críticas e ameaças são o mais recente passo numa longa tradição de inimizade entre os dois países. Em 1961, cerca de 1400 cubanos treinados e financiados pela CIA desembarcaram na ilha numa tentativa de derrubar o regime de Fidel Castro, na chamada Invasão da Baía dos Porcos. Desde então, sucederam-se restrições comerciais impostas pelos Estados Unidos, que, especialmente durante ambos os mandatos de Donald Trump, exerceram uma repressão acrescida, prejudicando fortemente a economia cubana.
Em contraste, não há muitos anos, a presidência de Barack Obama aproximou os países e restabeleceu as relações diplomáticas há muito degradadas. Essa política, que anunciava uma nova era de colaboração internacional, viu todas as suas esperanças defraudadas pelo segundo mandato de Trump. Se há uma década se poderia antever um ambiente de pacificação, hoje intensifica-se a tensão, mas é importante manter em mente que, tal como a recente volta de 180 graus na relação com Cuba, também é possível que a próxima administração da Casa Branca recupere o legado de Obama (o primeiro presidente dos Estados Unidos a pisar solo cubano desde a Revolução) e procure edificar uma cooperação duradoura, robusta e resistente a flutuações políticas futuras.
Curiosamente, Cuba tem encontrado na América do norte um dos seus maiores aliados. O Canadá disponibilizou 5,5 milhões de dólares canadianos (3,4 milhões de euros) para ajudar a nação caribenha. O apoio monetário visa responder à urgência da crise vivida em Cuba, contribuindo para assegurar o acesso da população a alimentos e medicação. As instituições de saúde e as necessidades de combustível são prioritárias e devem beneficiar abundantemente deste auxílio.
Mesmo com essa bem-vinda ajuda financeira, dificilmente se evitará o colapso económico de Cuba. Nesta altura crucial, a ajuda humanitária é necessária. Num tempo no qual a oposição aos Estados Unidos é perigosa e as alianças políticas e militares perdem valor é necessário lutar no mínimo pela dignidade do povo cubano e agir em prol dos Direitos Humanos, resgatando os princípios fundamentais do respeito pela vida.
A linguagem simples e direta do presidente americano ilustra bem o novo olhar sobre as relações internacionais. A subtileza está em vias de extinção. O mundo está, como se tem afirmado com tanta frequência, cada vez mais polarizado. A discrição está a ser substituída pelo capricho.
É difícil perceber qual é a perceção de um americano comum em relação à atuação do seu país, mas, sobretudo na Europa, os exemplos diários da conduta de Donald Trump e do seu staff demonstram que os Estados Unidos se tornaram muito mais uma ameaça do que um aliado. Não podemos contar com os EUA.
Resta então a urgência de uma Europa coesa. É preciso uma união internacional verdadeiramente competente e comprometida com a paz, a dignidade e a liberdade. Qualquer democracia devia prezar a segurança, a saúde e a educação de todos, mas enquanto subsistirem poderosos governos unipessoais ou oligárquicos quase exclusivamente focados na eliminação de inimigos ou na conquista de território, a pobreza, a fome, o analfabetismo e a criminalidade continuarão a ser a norma.
A barbárie domina o mundo e, à falta de Messias libertadores, é no povo que reside a possibilidade de Revolução, de voto responsável e consciente capaz de inverter tendências extremistas, injustas e violentas. Cuba é um exemplo, uma oportunidade para ver o pior que há no mundo tomar forma e decidir se vale a pena lutar contra isso ou não.