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Guerra no Irão: atacar um pilar da estratégia sino-russa

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Entender o conflito que os Estados Unidos e Israel travam contra o Irão requer problematizar o papel do regime teocrático na esfera de poder regional


Na guerra do Golfo Pérsico, a teocracia iraniana parece conseguir sobreviver aos ataques de Israel e da maior potência mundial, os Estados Unidos. Entre traições ao direito internacional e abraços ao unilateralismo por parte de Washington, este conflito destrói paradigmas que orientavam a diplomacia ocidental, já que os países que outrora se posicionaram cegamente do lado americano hoje não conseguem apoiar nenhuma parte da retórica da administração Trump. Veja-se os casos de Sánchez e Meloni. Os europeus desistiram de procurar dar apoio aos norte-americanos nas suas intervenções externas, porque a Casa Branca já não é vista com a legitimidade que em tempos teve.

A atenção mediática que é dada a estes novos precedentes levanta inquietações, principalmente em torno dos impactos económicos do conflito e das infelizes decisões de Trump. Possibilidades de um cessar-fogo, números de vítimas e declarações oficiais dos países beligerantes também conseguem arranjar o seu espaço nos telejornais, mas pouco se diz sobre o que torna esta guerra única: a posição do Irão no mapa.

As democracias estão a ver cair o multilateralismo ocidental como consequência de uma América irresponsável e ofensiva, mas o eixo das autocracias parece sair ileso de uma guerra na Eurásia que afeta um dos principais parceiros estratégicos de Moscovo e Pequim. Se, por um lado, é o regime dos aiatolas que está sob fogo de uma “fúria épica”, por outro é este país que tem contribuído para sustentar a força das lideranças de Putin e Xi Jinping, bem como a ascensão da Ásia Central no jogo mundial de interesses. Compreender as implicações desta guerra obriga a ver na geografia iraniana um ponto de fricção em que o projeto autocrático sino-russo colide com a estratégia ocidental.

Este trabalho propõe-se a analisar o papel do Irão como conector e zona tampão da Eurásia à luz das teorias clássicas da geopolítica, com o objetivo de perceber como é que este conflito pode mudar o futuro das relações internacionais. Neste sentido, queremos tentar identificar as especificidades que estão ligadas à geopolítica do Irão como país que liga as regiões vizinhas, enquanto leva a cabo, paralelamente, uma política de oposição à hegemonia norte-americana.

O Irão no mapa estratégico

À primeira vista, a geografia parece destinar o Irão a um Médio Oriente de grande instabilidade, marcado pelo radicalismo islâmico, por guerras religiosas e conflitos regionais. O próprio relevo do território confina a população iraniana a uma vida entre cordilheiras e terreno acidentado, numa espécie de fortaleza natural formada pelas montanhas Zagros, que ajudaram a escrever a longa história de resistência do povo persa contra ameaças externas (Collins, 2006).

Apesar deste encarceramento topográfico que aparenta isolar o Irão, o país beneficia de um perfil de conectividade e de abundância em recursos naturais, que é garantido pelo lugar que ocupa no globo. O Irão é o único país do mundo que faz fronteira, em simultâneo, com o Mar Cáspio e com o Golfo Pérsico, dois grandes centros energéticos. Acresce-lhe a centralidade transregional: tem os seus limites no Iraque, no Cáucaso, na Ásia Central e no Sul da Ásia, através da fronteira paquistanesa. Se nos basearmos nas ligações que esta centralidade oferece, podemos defender que o Médio Oriente é limitado pelo Irão, que a Ásia Central e Ocidental nascem dele, enquanto o Cáucaso e o Cáspio morrem nos vales das montanhas iranianas de Alborz.

É este mosaico fronteiriço que “cria uma oportunidade estratégica única para que o Irão assuma um papel proeminente no sistema político internacional” (Asisian, 2022). A norte e a sul, a teocracia explora as riquezas energéticas do Mar Cáspio e do Golfo Pérsico e tem a opção de controlar, como mostra esta guerra, o tráfego marítimo que passa em Ormuz. A corrida às energias é um sintoma precoce da competição pelo controlo das relações entre estes três pontos estratégicos, que vão marcar a atmosfera da ordem mundial que está a emergir (Asisian, 2022). Teerão já tirou proveito disso.

A equação que aqui se põe é de relativa simplicidade quando posta nos seguintes termos: o mapa dá ao Irão não só acesso à energia, como também às fronteiras pelas quais pode exportar esses recursos (é evidente que as sanções têm um papel importante nesse cálculo, mas a disposição da geografia alivia a clausura iraniana). Por ocupar um território que junta diferentes regiões, o Irão passa de muralha morfológica a um país de trânsito na conjuntura eurasiática (Noorali & Ahmadi, 2023). Para ancorar esta perspetiva nas teorias clássicas da geopolítica, devemos inclinar a nossa perspetiva para uma dualidade que distingue o Irão como território capaz de fazer a ponte entre o poder terrestre e as riquezas das regiões marítimas.

Uma das mais conceituadas teorias da literatura geopolítica parte de Mackinder e sugere uma perspetiva de mundo na qual a Rússia, a Ásia Central e o interior da China constituem uma Heartland, isto é, o centro do continente eurasiático, sobre o qual a hegemonia seria edificada no caso de um país se apoderar do controlo desta região (Mackinder, 1904). Em oposição a esta perspetiva, Spykman (1944) vai defender que é nas margens (Rimland) periféricas desta Heartland que a luta pelo controlo mundial se vai travar. Portanto, a Rimland será a periferia eurasiática na qual o poder terrestre se liga ao poder marítimo para criar uma zona tampão que percorre a Escandinávia, a Europa, os Balcãs, o Médio Oriente, a Índia, a China, o Sudeste Asiático e a Sibéria de Leste (Mirković, 2025).

Com base nestes dois pontos de vista da geopolítica clássica (altamente reduzidos nos limites sintetizantes do parágrafo anterior), podemos afirmar que o Irão é uma parte integrante da Rimland, com acesso direto à Heartland, o que o leva a funcionar, como veremos, como zona-tampão entre poder terrestre e poder marítimo, que olha para ambos os lados (Spykman, 1944). Para tentar provar que “a batalha pelo Irão é a batalha pela alma eurasiática” (Asisian, 2022), no capítulo que se segue iremos tentar compreender como é que o regime dos aiatolas se fez incorporar nas estruturas de poder eurasiático, sem as quais não poderia fazer valer as oportunidades que a geografia lhe dá.

Conexão e alinhamento: uma política externa de “olhar para Este”

“Após a revolução de 1979, o Irão saiu da esfera de influência norte-americana e criou uma fissura no anel geográfico em torno da União Soviética” (Mirković, 2025). No seguimento do processo revolucionário, as ambições de política externa do regime iraniano aproximaram-no de um isolamento que recusava o diálogo com as potências do Ocidente e da Eurásia. Mas a imposição de sanções pelos ocidentais e a crescente hostilidade para com os israelitas e os norte-americanos veio forçar uma deslocação estratégica para Este, que se coaduna com o pilar anti-ocidental que sustenta a ideologia do regime (Azizi, 2023).

A teocracia conseguiu usar a centralidade geográfica e o poder religioso do país para manobrar entre o isolacionismo e projetar influência além-fronteiras. Mas tal não foi plenamente garantido pelo estabelecimento de proxies ou pelos recursos petrolíferos. O Irão adotou uma estratégia de “olhar para Este” com o fim de se fazer representar na “arquitetura institucional das organizações regionais e transregionais emergentes, que envolvem potências eurasiáticas cruciais” (Altynbek et al., 2025).

A política de “olhar para Este” sinaliza o estreitamento das relações entre o regime islâmico e os seus parceiros eurasiáticos, de modo a contrariar o antigo isolacionismo estratégico que se intensificava com as barreiras económicas que lhe foram sendo impostas (Altynbek et al., 2025). Pelo espaço que o Irão ocupa na Rimland, a geografia facilita a construção de parcerias com a Rússia e a China, que veriam no Irão um centro logístico facilitador de um vínculo entre os seus parceiros e as diferentes zonas de interesse geoeconómico, e reforçar assim as relações que mantém na região.

De olhos postos a Este, o Irão garantiu o seu lugar nas mesas de negociação dos países BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), mecanismos que potencializam a oposição ao Ocidente e que oferecem a integração num mercado eurasiático altamente competitivo. Para fins de comparação, o PIB combinado dos membros da SCO representa cerca de 25% do PIB mundial, enquanto a União Europeia reclama apenas 15% deste valor.

Dentro destas organizações, o regime islâmico não preserva laços significativos apenas com Moscovo e Pequim, mas também com as duas maiores economias da Ásia Central - o Cazaquistão e o Uzbequistão. A primazia que é dada às relações económicas vem reforçar a aproximação comercial que tem vindo a ser feita entre os iranianos e os países da União Económica Eurasiática, que, além dos BRICS e da SCO, é uma instituição que (começa) tem vindo a ser procurada pelas intenções diplomáticas do Irão. → instituição que começa a ser alvo no radar das intenções diplomáticas do Irão.

Desta política externa de Teerão resulta uma inclinação geopolítica que favorece um alinhamento progressivo com as investidas estratégicas que se impõem pelo consenso ideológico dos países eurasiáticos. De marginal e isolado, o Irão passou a um interveniente regional ativo e beneficiário do multilateralismo, ao celebrar acordos comerciais com os seus vizinhos e aumentar o próprio envolvimento nos assuntos regionais.

Um dos aspetos mais sintomáticos desta abertura à cooperação é o envolvimento de Teerão numa dinâmica de planeamento logístico subordinada às prioridades das grandes potências eurasiáticas. A adoção de um sistema de infraestruturas decorre deste acesso aos mercados envolventes e remete para uma confluência de interesses entre Teerão, Moscovo e Pequim (Altynbek et atl., 2025).

Uma ramificação logística da estratégia Sino-Russa

Submetido à sua situação de Estado da Rimland, o Irão é um “peso numa balança usada por outros” (Spykman 1942, p. 20, citado por Mirković, 2025), visto que a sua atuação internacional terá de remeter para as pretensões geopolíticas das grandes potências. Neste desequilíbrio de poderes, os gigantes da Eurásia jogam em território estrangeiro para alimentar a fidelidade das suas áreas de influência. Num Irão altamente desfasado da diplomacia, são as características geográficas que levam vantagem sobre a sua fragilidade política internacional, ao fazer surgir oportunidades de cooperação económica, especialmente como país de trânsito de mercadorias e exportador energético.

A geografia fez do Irão uma ponte que aproxima os territórios regionais, e isso interessa aos países eurasiáticos que procuram vias de acesso ao comércio internacional. Para Moscovo e, especialmente, para Pequim, interessa patrocinar um sistema complexo de transportes que assegure melhores relações comerciais na Eurásia e que potencie uma ordem mundial multipolar. A partilhar corredores económicos e acordos multilaterais com as duas grandes potências, o Irão atua como contrapeso da Influência norte-americana na região e eleva a amizade sino-russa na hierarquia de líderes do Sul Global (Evron, 2024).

Nos mapas da Eurásia, o traçado das linhas de transporte deixa claro que a dinâmica da região está sob a alçada das grandes potências. A deslocação da influência russa para sul, através do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC), vai ao encontro dos planos logísticos da Nova Rota da Seda da China (Belt and Road Initiative [BRI]), que investe em infraestruturas de ligação intercontinental (Mirković, 2025).

Para a estratégia chinesa da Nova Rota da Seda (BRI), o regime islâmico de Teerão é um dos pilares da “formação de um circuito eurasiático fechado” (Asisian, 2022), que se sustenta com a garantia de que as linhas de transporte da Rimland da Ásia Ocidental se integram numa rede transregional. Aliás, a própria BRI foi pensada para dar início a um processo de rutura do cerco geográfico que se impunha sobre os chineses pela força de influência ocidental (Mirković, 2025).

Neste puzzle, o Irão é o eixo central de uma ligação que atravessa o sul eurasiático para chegar ao Médio Oriente e à Europa. O projeto do Corredor Económico China-Ásia Central-Ásia Ocidental (inserido na Nova Rota da Seda), prevê o acesso ao Golfo Pérsico, ao Mar Mediterrâneo e à Península Arábica, a partir do território chinês, de acordo com o Gabinete de Informação do Conselho de Estado da República Popular da China. Como formula Boltuc (2025), esta via económica abraça o corredor encabeçado pela tríade Russia-Irão-Índia, o INSTC, numa espécie de combate à influência ocidental do Corredor Índia-Médio Oriente-Europa (IMEC), que é apoiado por países como a Índia, a Aurábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, Israel, os Estados Unidos e os países da União Europeia (IMEC, International, 2024).

Tal como recorda Asisian (2022), a estratégia de Pequim é deliberada e gradual, porque tem os seus fins estabelecidos numa visão de longo-prazo. Neste sentido, fechar o mercado da Eurásia numa teia de caminhos de ferro controlada por países do bloco sino-russo exige ligar os pontos de importância geoeconómica aos grandes centros demográficos da Eurásia. Esta rede logística permite à Rússia e à China desfrutar de maior segurança económica, ao diversificar as suas opções de transporte de mercadorias e ao minimizar a influência norte-americana num dos maiores blocos comerciais do mundo.

Segundo a Comissão de Revisão Económica e de Segurança Estados Unidos-China (USCC, 2026), a parceria entre a China e o Irão materializa-se nos 339 mil milhões de euros (na conversão do dólar americano) que serão investidos por Pequim ao longo de 25 anos. Celebrado no ano de 2021, o acordo compreende uma troca entre descontos no petróleo iraniano e o financiamento da construção das infraestruturas necessárias para integrar o mercado da região (USCC, 2026).

Para pôr em perspetiva os interesses das grandes autocracias da Rússia e da China, há que colocar as iniciativas do plano logístico nos quadros conceptuais dos clássicos da geopolítica. As linhas de transporte e os corredores económicos alargam-se entre fronteiras e unem os países da massa central eurasiática às inclinações de força marítima dos países que estão nas suas periferias continentais. Neste cálculo geopolítico, o Irão oferece a oportunidade de escoar as mais-valias do investimento na Rimland para o interior da Eurásia, conduzindo a criação de riqueza e o desenvolvimento económico em direção à Heartland (Asisian, 2022).

Uma guerra contra Teerão põe em causa não só a teocracia dos aiatolas, como todo o equilíbrio e bem-estar regional. É o Irão que tem a capacidade de aproximar Moscovo de Nova Delí, Pequim de Ancara e Astana de Riade. A ausência de um alinhamento iraniano com as estruturas de poder eurasiáticas assaltaria a  Rússia e a China do seu atual estatuto de grandes peões no mercado. Sem Teerão neste triângulo de líderes, o petróleo, o gás natural, os minerais, os produtos eletrónicos, os insumos agrícolas e os bens manufaturados perderiam um eixo da suas rotas comerciais. Neste cenário, a ação ocidental que aproveita a restante Rimland acabaria por atrair o valor económico que transita pelas artérias sino-russas no território Iraniano.

Uma zona-tampão das autocracias

Mais do que um intermediário económico que permite o transporte de mercadorias, o Irão é parceiro das duas grandes autocracias da Eurásia e toma o papel de zona-tampão ativa. O privilégio geográfico que lhe confere um estatuto de núcleo logístico é o mesmo que faz do território iraniano um muro de segurança a favor do status quo da Eurásia.

Asisian (2022) expõe a maneira como se pode usar o argumento histórico na classificação do Irão enquanto zona-tampão, seguindo a lógica de que é um vasto território no limiar das esferas de influência ocidentais e sino-russas. Em 1907, a Entente Anglo-Russa acordava a divisão da Pérsia entre os dois países e, em 1921, os artigos 6º e 7º do Tratado de Amizade Russo-Persa autorizavam a interferência da força russa em território persa no caso de se verificar uma intervenção armada lançada por terceiros (Central Intelligence Agency [CIA], s.d.). Com documentos históricos a comprovar a tese - o Irão como zona-tampão -, Asisian (2022) diz que estes tratados podem ser ressuscitados pela aliança sino-russa. Se pusermos as coisas desta maneira, a possibilidade de as potências eurasiáticas entrarem no conflito que dura desde fevereiro não é nula.

Apesar desta evidência histórica, que admite que a geografia torna inevitável para o Irão um tratamento de zona-tampão, dar forma a uma separação de segurança entre grandes potências não garante ao território iraniano o rótulo de zona-tampão ativa. Pelo contrário, propomos que se olhe para o caráter ativo deste tamponamento como uma ação deliberada. O que se verifica é a instituição de uma zona-tampão que integra as estratégias de segurança e política externa dos Estados que dela beneficiam

Partindo deste pressuposto, o Irão é uma zona-tampão ativa na medida em que serve ativamente as vontades da parelha Rússia-China. Numa formulação dual, identificam-se dois principais pilares que alimentam a atividade de um Irão que serve de zona-tampão protetora da supremacia sino-russa na região e livre da ingerência norte-americana: o Irão dispõe um território que, primeiro, defende os portões da Eurásia com tecnologia militar chinesa aliada a exercícios militares entre Irão, China e Rússia (USCC, 2026), e que, em segundo lugar, inscreve na geoeconomia regional uma inclinação político-ideológica favorável a Moscovo e Pequim.

As relações de cooperação militar entre o Irão e os dois grandes da Eurásia têm algumas sensibilidades complexas. O Irão não é bem visto, e isso afeta as escolhas diplomáticas de quem o escolhe como parceiro. Assumir uma aliança com Teerão implica uma proximidade ao regime teocrático, que é muitas vezes desconfortável para a Rússia e a China. Ainda assim, estes últimos dois países arriscam pisar este terreno diplomaticamente acidentado e promover um patrocínio militar ao Irão.

Seja por meio de exercícios navais, partilha de serviços de inteligência ou investimento na formação dos grupos armados do regime, a parceria sino-russa garante a qualidade dos instrumentos de defesa deste país. Tal poderá explicar o infame prolongamento das operações americanas e israelitas contra o Irão, apesar da inferioridade militar deste último. No fundo, o Irão é útil porque resiste.

No campo da geoeconomia, a função iraniana enquanto zona-tampão ativa é a de uma ramificação logística e energética das ambições de mercado sino-russas, como tratámos anteriormente. Os centros energéticos do Cáspio e do Golfo Pérsico têm um papel crucial nos horizontes da política energética de Teerão. Um exemplo disso será o abastecimento da economia de Pequim, que comprou mais de 80% do petróleo iraniano em 2025. Em paralelo, a rede de corredores económicos que está sob a autoridade política da China e da Rússia tem no Irão a sua plataforma logística mais importante no domínio da conexão transregional e intercontinental. É assim que os iranianos conseguem afastar os monopólios norte-americanos e promover uma ordem multipolar a favor dos líderes eurasiáticos.

Conclusão

Entender o conflito que os Estados Unidos e Israel travam contra o Irão requer problematizar o papel do regime teocrático na esfera de poder regional, com vista a compreender melhor as implicações futuras da presente guerra, bem como dos conflitos recorrentes que vêm surgindo da relação hostil entre o Irão e a amizade israelo-americana. Ainda que seja impossível afirmar com certeza quais são as motivações que estão por trás da administração Trump neste conflito, parece-nos possível e pertinente caracterizar os traços geopolíticos da atuação iraniana.

Foi com este último objetivo que se procurou alertar para os pontos fortes do aproveitamento geográfico na política externa iraniana e desdobrar algumas das dinâmicas de poder que regem as relações de Teerão com Moscovo e Pequim. Após justificar a importância da geografia iraniana no seu papel regional, discutimos como se deu a entrada de Teerão nas organizações internacionais, relacionando-o com a postura diplomática do regime. Foi este início que alimentou as ideias principais deste trabalho: mostrar o lado logístico do Irão e a sua componente de zona-tampão ativa.

Uma das principais fragilidades a apontar na nossa redação prende-se com o facto de não existir uma distinção clara das relações entre Irão-Rússia e Irão-China, já que fizemos convergir as ambições políticas destes três atores do Sul Global. Ainda assim, acreditamos que a nossa pesquisa pode contribuir para enfatizar a necessidade de uma análise mais aprofundada das complexidades geopolíticas que estão na base deste conflito.

Por último, importa sublinhar a principal questão que tentámos comprovar, que se prende com o facto de este conflito, independentemente das verdadeiras motivações norte-americanas, trazer inevitavelmente uma colisão entre o projeto autocrático sino-russo e a ofensiva israelo-americana na região. O Irão é um território de grande interesse e preocupação para as lideranças mundiais, e aparece cada vez mais como um espaço em que o Sul Global confronta o Ocidente vis-à-vis o poder de coerção na Eurásia.


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Escrito por Fernando Peixinho